walter sanzovo valores

Os significados que podem ser atribuídos ao que se denomina ‘valor’ permitem desenvolver estudos dos mais variados, abrangendo desde os campos da filosofia, da sociologia, da história, do direito, da economia, além de estudos pertinentes à psique e ao comportamento humano, como é o caso da psicologia e da psicanálise, dentre outros. Assim, podem ser estudados os valores morais que orientam o comportamento dos indivíduos em uma determinada cultura ou sociedade, em certa época e local; podem ser estudados os valores éticos que pautam a conduta dos membros de certas comunidades, instituições ou associações; além dos valores específicos que estabelecem as relações entre elementos pertencentes a determinado grupo ou núcleo familiar, todos também considerados sob as circunstâncias de tempo e espaço. Valor também pode assumir a conotação material, quando se referir a avaliações monetárias mercantis e econômicas dos bens e serviços, do trabalho e de outros fatores de produção, em determinado tempo e região; pode corresponder ao poder de compra da moeda de um país em certos momentos da história. Valor ainda pode ser apreciado sob a ótica da importância que certos objetos assumem para alguns indivíduos, muito diferente de seu valor econômico, quando passam a ter um ‘valor sentimental’.

Destacam-se nesse texto, dentre as mais importantes aplicações para o termo ‘valor’, duas conotações em especial. A primeira delas refere-se a ´valor´ quando este assume a acepção de significado, ou seja, o valor que é atribuído a um determinado estímulo quando este é recebido e absorvido por um indivíduo. A segunda conotação, que aqui se reveste de maior interesse, caracteriza-se quando ‘valor’ corresponde a um balizador, um norteador do comportamento de um indivíduo, em suas relações com o meio onde está inserido.

Todos esses conceitos, atribuições ou conotações citadas, de alguma forma se associam, influenciam ou mesmo podem fazer parte do conjunto e da estrutura hierárquica dos valores que cada indivíduo interioriza. Tais valores individuais refletem, em última análise, os principais sentimentos e emoções que cada um privilegia experimentar (ou evita sentir) regularmente.

Onde tudo se inicia...

A formação dos valores que constituem a estrutura direcionadora do comportamento de um indivíduo, que também podem ser entendidos como suas crenças iniciais, é fruto, primeiramente, dos valores dos pais que comandam o núcleo familiar onde ele nasce e se desenvolve (valores esses, por sua vez, que sofrem forte influência dos valores e regras de conduta impostos pela comunidade onde se situa o núcleo familiar). Outros elementos fundamentais na construção dos valores individuais, advêm da influência do processo educacional, das relações com elementos da comunidade (assim como citado para os pais), da importantíssima influência das crenças religiosas, dos fatores vinculados a ambientes de trabalho e, de modo muito especial, do significado próprio dado às experiências vivenciadas na interação do indivíduo com todos esses elementos ao longo de sua existência.

No início da vida, de modo geral, há uma aceitação inconteste por parte dos pais ou parentais (particularmente da mãe ou cuidadora) no que tange ao dever de suprir as necessidades essenciais do novo ser que vem ao mundo e que se mostra totalmente frágil e dependente. Dessa condição, decorre a prevalência, a prioridade do atendimento de seus desejos instintivos na busca de satisfação de suas demandas básicas, suas necessidades primárias de sobrevivência: alimentação e proteção, conexão e segurança. É a constatação da primazia do novo ser sobre o núcleo familiar, do início da instalação do que a psicanálise chama de narcisismo primário; do ‘eu’ em primeiro lugar (mesmo que ainda não haja a completa consciência desse ‘eu’). Na sequência, à medida em que o novo ser se desenvolve, começam a se estabelecer algumas pré-condições, a necessidade do atendimento a certas regras para ter satisfeita suas carências, e é quando se inicia a assimilação dos valores que regem o núcleo familiar, como por exemplo: manter-se contido e não chorar a todo momento; respeitar horários de alimentação, de sono, adequar-se a momentos e locais apropriados para defecção; respeitar horários de diversão, das atividades escolares;  obedecer os pais, etc.

Começa assim o que se pode chamar de ‘o adestramento do eu’; a sua adaptação ao externo, aos outros; a regulação e adequação de seus desejos às condições do primeiro grupo social onde ele se acha inserido. Firma-se a percepção de que, embora ainda seja um elemento carente e dependente, acabou o reinado absoluto da predominância de satisfação de suas necessidades sobre os demais: há outros elementos no grupo que também são importantes e requerem atenção e, às vezes, mais prioridade; começa a fase do narcisismo secundário, a batalha entre o ‘eu’ e os ‘outros’, que compõem a percepção do ‘nós’.

A perda da prioridade absoluta; a adaptação às regras...

Desse modo, a perda da soberania inicial acompanha a compreensão de que, doravante, terá esse indivíduo que se submeter a algumas pré-condições, terá que respeitar certos valores externos para sentir a sensação de saciedade, de prazer, pelo atendimento de suas necessidades fisiológicas básicas. Ao cumprir essas regras, à essa sensação de saciedade e acolhimento físicos, começam a associar-se também sentimentos de segurança emocional e reconhecimento, quando ele passa a ser ‘aprovado’ como um elemento bom, que atende aos requisitos de conformidade da família, atende a seus valores, merecendo desse modo ser considerado apto a pertencer, a ser aceito de bom grado no núcleo familiar.

Começa então esse indivíduo a perceber que a observância e a adaptação aos valores familiares geram emoções de prazer. Em contrapartida, a não observância desses valores, implica em experimentar o desconforto, a dor de não ter satisfeitas suas demandas básicas (pelo menos no tempo ou na forma mais desejados), bem como, implica em experimentar distonias emocionais, sentimentos negativos, tais como: sensação de não aceitação, de reprovação e não acolhimento; de inadequação, rejeição ou abandono – em suma, de insegurança – distonias essas que se constituem nas emoções que o indivíduo passa a evitar sentir ou, em outros termos, emoções que passam a compor sua lista inicial de condutas a evitar, pois tem valor de desconforto, de dor.

Portanto, a compreensão de que atitudes e condutas alinhadas com os valores familiares promovem sensações de prazer e atitudes e condutas que não atendam a esses valores geram emoções de desconforto e de dor, constituem-se na assimilação da primeira estrutura básica de valores de um indivíduo, a qual começa a ser interiorizada durante sua infância, continuando ao longo de todo o seu desenvolvimento.

O grande fiscal que vigia o cumprimento dos valores: o Superego

Por sua vez, a incorporação dessa primeira estrutura de valores através de sua prática contínua, produz um padrão de conduta que se torna a peça-chave para formar o embrião do que se tornará o superego do indivíduo: a instância psíquica que atuará, primordialmente, como um agente fiscalizador de suas atitudes no cumprimento dos valores incorporados, promovendo sentimentos negativos (distonias) sempre que seus principais valores não forem atendidos. Dessa forma, de início, o superego do indivíduo acaba por se formar pela observância dos mesmos valores sobre os quais atuam também o superego dos pais  – que se traduzem nos valores familiares – o que permite supor que o seu superego se estabelece, inicialmente, pela assimilação e incorporação do superego de seus pais.  

Esse processo, de contato e avaliação, de identificação (ou não) com valores externos, que se inicia e é experimentado intensamente no primeiro grupo social com quem o indivíduo se relaciona – sua família de origem – vai se repetir em todos os demais grupos, instituições, ou pessoas, com quem o indivíduo irá interagir em sua trajetória de vida: escola, religião, amigos, trabalho, parceiros, novo núcleo familiar, etc., consolidando e modelando a formação de sua estrutura de valores e de seu superego.

A consolidação de um valor....

Cabe também salientar que a formação, a interiorização de um valor individual passa pela sua experimentação, pela memorização e identificação do indivíduo com as emoções a ele inerentes, e pelo exercício constante de sua prática, sentindo, avaliando e assimilando as emoções e sentimentos correspondentes. Somente quando sua prática estiver consolidada e absorvida como um novo elemento a ser ´vigiado’ pelo seu superego é que se pode considerá-lo de fato um valor. Analogamente, é muito comum encontrar-se nas organizações comunicações que definem e afirmam sua missão, sua visão e seus valores; contudo, só serão realmente valores aqueles que forem regularmente praticados de fato.

Assim, nem todo valor moral de uma sociedade é automaticamente incorporado à estrutura de valores individual. Pode ocorrer de um indivíduo ter conhecimento dos valores (princípios e leis) que regem a sociedade onde vive, porém, agir sem nenhuma consonância com tais valores porque não se identifica com eles. Por exemplo, ele sabe que é proibido tomar para si objetos alheios, porém, ‘honestidade’ não foi identificada e incorporada como um valor para ele, que pratica roubos sem nenhuma culpa ou censura interna por parte de seu superego: ele só se sentirá punido por censura externa (reprovação ou aplicação das leis). Por sua vez, um outro indivíduo que age de acordo com os valores externos (morais ou legais), pode sentir culpa por não ter dado a devida atenção a um familiar mais velho, se o valor ‘respeito’ fizer parte de sua estrutura de valores, quando então seu superego denunciará essa conduta considerada indevida, em desacordo com seus valores. De outra parte, pode haver valores que, mesmo que não expressamente descritos na estrutura de valores individual, estão latentes, incorporados e consolidados como crenças na psique do indivíduo, introduzidos que foram pela intensa e rigorosa prática de princípios familiares, educacionais ou religiosos. A honestidade, a honra, a preservação da vida, são exemplos dessa espécie de valor, que podem estar já profundamente enraizados como parâmetros essenciais básicos de comportamento, como crenças instaladas, que passam a ser inerentes ao indivíduo, sendo também objeto de severa vigilância por parte de seu superego, já que se constituem em elementos relevantes que fazem parte de seu ideal de vida.

Assim, mesmo sob o guarda-chuva e sob as restrições impostas pelos valores gerais que regem a vida em grupo, em uma sociedade ou em qualquer de seus segmentos – sejam esses valores representados por princípios morais, leis, regras, ou costumes – há uma gama enorme de possibilidades de um indivíduo interagir com seus pares, e essa interação será objeto de prazer ou de dor conforme atenda ou não a estrutura dos valores efetivamente incorporados por esse indivíduo. A estrutura hierárquica dos valores individuais não é imutável ou permanente: ela pode e deve ser ajustada de acordo com a evolução de cada um.  Por esta razão, um processo de análise de valores no campo da psicanálise, considera a estrutura de valores individuais, e não os valores gerais da sociedade ou instituições externas com quem o indivíduo se relaciona.

Concluindo...

Vale salientar que do confronto entre duas importantes forças – as pulsões  que geram os desejos sem regras (o ‘eu’ primário e instintivo), versus a atuação do superego, como guardião da conduta alinhada à estrutura dos valores individuais (que orienta a interação com os ‘outros’) – é que nascem os conflitos que permeiam a vida humana desde que o homem passou a viver em grupo, isto é, o conflito entre o interesse particular e o coletivo; entre o que o indivíduo deseja e o que lhe é permitido; entre o que ele pode e o que lhe  convém, no meio onde está inserido.

A gestão desses conflitos demanda grande energia para a tomada de decisões sobre a escolha das atitudes a adotar. A hierarquia de valores nesse contexto, atua como uma orientadora dessas atitudes, facilitando as escolhas de comportamento, pois se as atitudes não forem conscientemente elaboradas, podem dar origem a distonias emocionais (sentimentos negativos), recalques ou neuroses. Tais consequências decorrem da não observância dos valores individuais, podendo ser geradas por censura externa (punições legais, desaprovação social) ou censura interna pela ação do superego (desconforto, culpa, etc).

Por fim, é fundamental destacar que a estrutura de valores individual está intimamente vinculada com os propósitos de vida do indivíduo, já que a vivência de um estado de bem-estar, que é parte inerente a qualquer objetivo relevante de vida, é justamente propiciado por decisões e comportamentos que se alinham e respeitam seus principais valores.

Walter Sanzovo

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